segunda-feira, 27 de junho de 2016

geração suicida

depressão é uma faca fria
que corta macia
a garganta de minha geração

quinta-feira, 23 de junho de 2016

surdez mundial

Eu vejo as finas traças do tecido da vida
se escapulindo de mãos
que tremem e convulsionam
de fome sede e frio;
ouço as agruras sussurradas
contra o vento que sopra
dos morros altivos
de dentro dos incompreendidos;
eu vejo os rebelados
em busca de todo ato de irreverência;
vejo as putas
os hereges
as bichas
os pretos
os obesos
os deslocados
os pobres
os famintos
em comunhão silenciosa sobre tudo
e sobre todos os outros;
ouço os cânticos negros
declamados e régios
a altas vozes
que se erguem sobre o mundo
e que não são ouvidos
pela surdez mundial internacional globalizada;
ouço as roucas vozes
que se esgotam e se contentam
que definham e se resignam lamentosas
mas que permanecem bradando
mesmo quando caladas.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

sobre a loucura

a sanidade
é sempre
teatral

a loucura
é um rio
que escorre


quinta-feira, 26 de maio de 2016

sobre mim, que me perdi.

eu,
um solitário
numa multidão
de solitários

eu,
cujas tempestades
agora
só garoam

eu,
que desisti de escrever
os textos que nascem
e nunca sobrevivem

eu,
que há muito deixei de ser eu
um pobre coitado,
esquecido de mim

eu,
que tenho contado
mentiras confortáveis
e verdades inventadas

eu,
que deixei de me tornar eu
que deixei de ser
as rimas que não fiz

eu,
que morri
nas palavras
que não escrevi


[Arte de Henrik Uldalen]

terça-feira, 24 de maio de 2016

o que aconteceu?

eu
que morri
nas palavras que não escrevi